Biografia
Quando ganhou um festival da Petrobras em 1996, com uma apresentação performática de canto-capella, parecia que a cantora novata possuía não só um talento promissor, mas uma sorte incrível. Na verdade já havia ganhado boas posições em Festivais na Escola de Música, um Prêmio de Iniciação Científica na Universidade, já cantava em público a pelo menos 10 anos, entre gincanas de escola e encontros estudantis. Ou seja, se a relação de total conforto com um público que lotava o Teatro João Caetano pudesse parecer algo de sobrenatural, especialmente para uma apresentação performática ousada, dentro de um Festival de MBP, dedicado as raízes populares do samba e suas vertentes, Elen, já havia, a esta altura, feito apresentações para grandes públicos, de forma amadora, em diferentes contextos. Por isto, a ida a Europa também fluiu bem. Dificilmente, uma cantora carioca com experiência e talento fora do comum, pairavam por terras estrangeiras aventurando-se em busca de oportunidades.
Após um período de experiências como cantora solo, alguns shows de sucesso e algumas tentativas de gravar um disco de forma indenpendente, a intérprete resolveu se atirar no abismo das artes, da composição e das novas e mais originais possibilidades. Assim, em contraste com os produtivos e mais intensos anos anteriores, a partir de 2002, de volta ao Brasil, Elen buscou outras oportunidades de trabalho enquanto maturava novas possibilidades de atuação através da performance e da arte sonora no ambiente das artes visuais. Ainda considerou um mestrado de Música e Tecnologia na Berklee, para que pudesse se aprofundar no que mais havia "emperrado" a sua carreira musical, que era a eterna dependência por recursos para realizar boas gravações, e, claro, se especializar mais tecnicamente para abrir novos campos de trabalho. Foi selecionada após uma prov, e obteve uma bolsa parcial. No entanto, os EUA entrou em guerra com o Iraque e os anos letivos foram cancelados. Com o plano adiado, as decisões mudaram de rumo. Decidida em dar mais uma chance ao seu retorno no Brasil, Elen chegou a organizar alguns shows com a ajuda dos músicos e outros amigos. Certamente, em 2003, no Rio de Janeiro, misturar instrumentos como a harpa, com bases eletrônicas era algo pra lá de 'avant garde'. Tudo virava um campo de experimentação e, se tais feitos já causavam certo distanciamento, mesmo nos antigos "fãs" e novos amigos, o que aproximava a todos era o desejo de provocar mudanças com atitudes artísticas que sugerissem quebra de tabus, por um lado, por outro lado, a excelência, experiência e beleza transmitidas na voz da artista.
As dificuldades de divulgação e aceitação de novas propostas, mesmo nos circuitos alternativos, levou a cantora, definitivamente para o território mais conceitual das artes.
Entre 2003 e 2006 ela se dividia entre organizar um ou outro show, uma e outra performance, gravar vídeos de arte e participar de coletivas de arte multimedia, que movimentavam o circuito pensante carioca: Cep 20000, eventos promovidos pela Cavideo, eventos de alunos do Parque Lage, etc.
Elen sempre teve uma forte presença e impacto nas suas performances. Isto muitas vezes parecia causar estranhamento nos "circuitos relacionais internos". Talvez pelos conflitos que um ambiente afirmativo e com muitas vaidades, no território da arte tenha. Talvez por que muitos sequer poderiam imaginar que aquela moça de aparência jovem, já havia rodado o mundo apenas em sua própria companhia. Já havia vivido tudo isto aqui narrado, e muito mais. Já havia feito concertos na Europa para mais de 10 mil pessoas. Já havia se apresentado em grandes casas de concerto e locais de referência para arte contemporânea.
Então, o distanciamento que poderia parecer soberba, na verdade era um exercício de desapego e humildade, para sempre novos recomeços. Um recomeço no Brasil, de um lado marginalizado e bem pouco privilegiado, dentro da cena carioca. Simplesmente por que não têm havido mercado para absorver artistas experientes, aptos a formar novas platéias, lhes dando possibilidades de organizar profissionalmente um trabalho, sem que o mesmo tenha que investir, dos seus próprios recursos para colocar o trabalho "na rua".
O artista sempre investe, mas o profissionalismo também está na dependência do profissionalismo de todo o meio, para que os investimentos surtam efeito. Com um cenário sem grandes incentivos para desenvolver um trabalho musical mais original, Elen voltou a Europa por um ano, se equipou de novos recursos, numa nova fase onde apenas um laptop e alguns softwares faziam o serviço de várias máquinas num estúdio. Fez apresentações de música e arte-performance em Berlin, gravações e workshops em Barcelona, e, em Ibiza tocou em festas e bares.
Após vivenciar o eterno clima de festa desta ilha, estava convencida que a forma mais original de se expressar, seria entrar no mercado promissor de DJ's, com o diferencial de poder adicionar o seu canto, ao vivo, nas apresentações. Canto lírico, popular, interferências poéticas. De toda forma ela estaria mais do que apta para "arrasar" na pista. Voltou ao Brasil, em 2008, passou a intensificar suas gravações caseiras de áudio, para dar uma formatação as suas músicas, e assim facilitar o trabalho de futuras parcerias nos arranjos, produção eletrônica e a finalização das gravações com masterizações e mixagens distintas.
Organizou diversos 'sets' DJ que previam sua interação eventual, com o canto. Fez apresentações muito bem vistas nas festas EUPHORIA, em Boates como a FOSFOBOX, e algumas participações com outros DJ's em algumas noites cariocas, no Festival CREAMFIELDS, e em eventos "puxados" por grandes shows como o do "Vive la Féte" no grande galpão do Centro Ação e Cidadania, na região do Porto.
O cenário carioca, mais uma vez, carente de muitos espaços para os DJ's e músicos atuarem, se revelava mais difícil do que o esperado, para uma DJ que se apresentava nos moldes de poucas no mundo: uma em Berlin, outra em Londres, e outra em Paris. Todas estas com preferências sonoras bem diferentes entre si, e diferentes da nossa DJ, que nessa época reavivou o nome "Sereia" do seu projeto musical autoral, para o título DJ e, como iniciou a agregar algumas experiências sonoras mais inusitadas, resolveu intitular seu novo trabalho de DJ de "Sereia Lab", assim, o laboratório de performance, se tornava também um laboratório de arte sonora, com a possibilidade de atuar no mercado de uma maneira bem "pop", como DJ!
Com as dificuldades de entrar num bom fluxo de apresentações pelo Rio de Janeiro, a artista se voltava, cada vez mais, a escrever projetos em que pudesse colocar em prática toda a sua experiência com a música e a performance, por um lado, desenvolvendo também possibilidades de inovação dentro de uma campo pouco explorado e ainda recente na história das artes visuais, como a arte sonora.
Assim, sua remota experiência de pesquisa científica e facilidades de pensar num trabalho-processo aliado a metodologias antigas e mais recentes, e, uma vocação para apresentar uma escrita fluente, levou a moça, já no final de sua terceira década de vida, a iniciar o trabalho mais ousado e inovador, não apenas da sua carreira e experiência, mas também da história de sua própria cidade, Estado, país, e mesmo mundial, em alguns aspectos deste trabalho.
Pela primeira vez seus anseios de compartilhar uma experiência mais original com o público, fazendo algo que inspire e faça refletir, estava de acordo com os anseios de um mercado emergente e sedento por inovação em todos os campos do conhecimento, e assim também na Cultura.
Dessa maneira, sua proposta de projeto passou num edital público e a artista se empenhou em fazer jus a oportunidade, trabalhando com seriedade para materializar a idéia, que a princípio reunia elementos bem distintos, e os seus resultados finais, embora projetados, eram ainda desconhecidos. Uma obra com desafios imensos, que se realizou como esperado. A DJ Subaquática é possível, esta fora a primeira etapa da sua comprovação. Com auxílio de softwares e desenhos, a artista acessava remotamente seu computador de dentro d'água para tocar as programações que organizava previamente no software para apresentações "dj" ao vivo. Cada imagem era conectada a um som, comando ou pista. Assim, o "laboratório" se apresentou como exposição imersiva e sensorial. Os aspectos técnicos foram atendidos, e o trabalho, sem dúvida, subjetivamente influenciara todo cenário por onde passou, para os que ali estavam e tiveram acesso a experiência compartilhada dentro daquele espaço. Até mesmo por onde o projeto não havia passado, foram encontrados registros em blogs de diversas pessoas que acompanhavam o tema da arte e tecnologia e obtiveram notícias através da grande mídia.
A partir destas primeiras etapas do projeto, a artista têm vivido o drama de quem dá o primeiro passo na concretização de uma excelente proposta para o cenário da cultura contemporânea, e fica com o trabalho parado e os investimentos perdidos.
A exposição que por suas características levam um laboratório de arte e tecnologia, para visitação e acesso do público, abriu possibilidades para inúmeros desenvolvimentos e desdobramentos. Tanto dentro do próprio projeto, como um estímulo a este cenário da arte contemporânea, a nível nacional. Baseados em fatos empíricos, pode-se dizer e concluir, que nenhum artista no cenário local, havia apresentado jamais, um trabalho de performance tão forte e consistente no que tange ao tema da comunicação e uso de novos recursos tecnológicos. Assim como nenhum trabalho de performance havia ocupado, em sua totalidade, o espaço de exposição, durante temporada em galeria.
Sobre este trabalho de performance, em específico, pode-se constatar que a artista optou mais pelo foco na montagem imersiva, visual e sonora, do que realmente radicalizar em alguns aspectos, como seria ficar todo tempo dentro do aquário, ou focar a performance na prática da apnéia, por exemplo.
Por que a apnéia é um recurso como qualquer outro, e é também uma prática competitiva que já existe por aí, registrada em livros de "recordes", etc., e, com o uso de oxigênio num cilindro, a performer poderia estar mais relaxada para executar uma ação muito mais complexa, que necessitava de sua total atenção: a mixagem sonora de dentro dágua e o "manejo" dos objetos/imagens que iriam comunicar com o ambiente externo.
Dentro disso, o seu trabalho, de fato, focou na inovação: outras pessoas já haviam entrado em aquários e tanques de água, testando a sua resistência das mais variadas formas, mas ninguém, até então, havia entrado num aquário-tanque para desafiar os seus próprios aspectos cognitivos, assim como o do público que está em outro ambiente, assistindo, num contexto de performance com práticas sonoras.
Para defesa deste trabalho e abertura de novas oportunidades, a artista Elen Nas, dedicou-se a organizar novas propostas, envia-las a editais públicos, e de Leis de Incentivo. Pelo que a autora percebe, houve ainda muita dificuldade dos "especialistas" que comandam as decisões destes editais entenderem a proposta, pois foram gastos alguns meses, e mesmo anos, para ter aprovação de certificados de Leis de Incentivo. Quanto aos editais que não dependem dos certificados de Leis, continua um mistério do por quê o projeto estar sendo, continuamente, recusado. Sim, nós temos ciência que até projetos de "medalhões" da nossa cultura, atrizes e atores de TV com mais de 30 anos de experiência, têm projetos recusados ao patrocínio em empresas, governo e bancas examinadoras das leis de incentivo, para citar apenas um contexto como exemplo. Entretanto, nos quesitos de "inovações", "originalidade", "formação de novas platéias", "apoio a produção nacional e local" e inclusão de artistas desconhecidos do grande público no mercado, e mais uma série de outros fatores que alguns editais sublinham, as propostas desta artista estão não somente de acordo, como por motivos já notórios, se destacam em relação aos indivíduos nas mesmas condições, especialmente no cenário local.
O projeto, feito ainda com poucos recursos, se comparado a sua magnitude e os custos que envolve, teve um retorno de mídia fora do comum. Poucos artistas, mesmo os renomados e mais experientes, no campo das artes plásticas, têm um retorno de mídia como o projeto "Sereia Lab" teve, durante o seu curso de exposição, do início ao final de 2009. Na verdade, de lá pra cá o cenário vêm mudando. Um novo caderno divulgando as artes plásticas foi criado no maior jornal de circulação da cidade, entre outros aspectos. É bastante incomum que um artista plástico pouco conhecido tenha a sua exposição como notícia e convite ao público nos meios de comunicação. E, não é difícil entender por que a exposição de Elen Nas suscitou este interesse maior e curiosidade: a artista, que vêm da música, faz arte para o grande público. Suas propostas de instalações e performances dependem de financiamento, pois não são vendáveis a um pequeno círculo, como é o caso de obras tangíveis, que podem ser adquiridas, "arrematadas" por um único comprador para serem expostas em suas residências.
Certamente, nestes anos passados, a artista vêm pensando em como criar pequenas obras, ou memórias da mesma, que possam ser arrematadas e gerar um fluxo de capitalização. Entretanto, nada se compara, ou será capaz de substituir a vivência que a obra e a performance proporcionam no seu contato, ao vivo. Dessa maneira, sua biografia encontra-se no momento em que a artista busca oportunidades para dar continuidade a este trabalho, avaliando algumas possibilidades de retomar os trabalhos como DJ, assim como suas gravações de músicas inéditas. Voltar a fazer shows é algo que depende muito de uma mudança neste tipo de cenário e do mercado, assim como oportunidades que valham a pena arriscar. A artista múltipla Elen Nas, nunca teve medo dos riscos, por isto sempre mergulha em novas perspectivas de expressão. A moça cita este Maiakoviski desde os 15 anos: "brilhar pra sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente é pra brilhar". E hoje, complementa com Marianne Williamson, citada por Mandela e muitos outros líderes: "não há nada elevado em se esconder, pois quando permitimos que a nossa própria luz brilhe, damos automaticamente permissão aos outros para fazê-lo... "
E, a performance é, de fato, este tipo de provocação: o performer se coloca em situações onde, quem o assiste, automaticamente se imaginará na mesma situação. Os ganhos de reflexão, em cada um, em relação a isto, são imensos. Alguns vão entrar em conflito consigo mesmos, suas crenças e verdades, outros se permitirão mudar algumas atitudes, seja frente ao conhecimento, frente ao outro, ou apenas na sua intimidade. Supõe-se que um bom trabalho de arte seja sobre isto: estimular os sentidos, abrir para novos olhares, estimular outras e novas reflexões.